alegrias proibidas

Romeno, nascido em Bucareste, Andrei Pleșu viveu muitos anos de sua vida em um país controlado por um regime comunista. Através da ótica de uma vida sofrida que teve nesse período, ele analisa o seu povo nesta situação, fazendo uma comparação com a vida na Europa Ocidental, que era, e ainda permanece de certa forma, completamente diferente.

É bom ler e ver as diferenças entre as alegrias que ele diz separar as pessoas do Leste Europeu e da Europa Ocidental, como, por exemplo, a alegria de um romeno da época em não lhe acontecer algum mal que lhe era previsto por viver dentro de um regime autoritário e injusto, enquanto que um francês da mesma época considerava como sendo algo comum coisas como energia elétrica ininterrupta, transporte público em boas condições e uma padaria com pães a um preço acessível para poder comprar em qualquer dia da semana. E isso diferenciava muito o romeno do francês, pois o que para um era “óbvio” com relação à vida diária, para o outro seria motivo de uma alegria inimaginável. No entanto, o que me chamou atenção foi o que o autor chamou de alegrias proibidas:

“na Europa Ocidental, a proibição, como expressão de uma moralidade unanimamente aceita, é legítima, o que faz que a transgressão dela seja maléfica. No Leste Europeu, a proibição era ilegítima, de maneira que a transgressão dela era um ato de coragem moral, uma forma pura de júbilo espiritual.”

Andrei Pleșu

Enquanto que para um, burlar as leis era uma falta grave contra o seu governo e até mesmo contra o seu povo, para o outro, o desrespeito à algumas leis era visto como uma “coragem moral”, pois, nessa perspectiva, não há nada mais justo do que burlar uma lei injusta.

Entendo que no Brasil haja uma separação semelhante: há alguns que vivem na “Europa Ocidental brasileira”, onde o “óbvio” é um mundo completamente diferente daqueles que vivem no “Leste Europeu brasileiro”; para aqueles a vida pode ser vivida através de uma busca de alegrias simples sem ter que levar em conta alguns problemas de seu país, enquanto que, para esses, há uma verdadeira imposição do Estado sobre eles, onde as leis só servem para punir e nunca para protegê-los.

Aqui também há o excluído, a diferença é que isso tudo acontece aqui dentro e não em países diferentes. E, a partir dessa perspectiva, acho que conseguimos entender um pouco da falta de cumprimento de algumas leis do nosso país, pois para os que estão na margem sua postura se assemelha ao que acontecia no Leste Europeu:

“a alegria de enganar o Estado, chegando até ao furto ao Estado, ganhavam, no contexto comunista, uma estranha legitimidade: eram um ato de sabotagem, uma maneira de pegar de volta o que o regime te confiscara de modo arbitrário quando chegou ao poder”

Andrei Pleșu

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