Mansidão

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”

Mateus 5.5

Tem momentos que tudo que eu preciso na minha vida são duas horinhas a mais no meu dia, ou um ponto e meio a mais na média para não ter que me preocupar com passar na faculdade, ou até uma kombi bem equipada para poder ir viajar pelo mundo com a minha futura esposa.

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Um lugar bom para dormir em cima, duas bikes para encostar o carro e passear, e bastante espaço para levar tudo que precisaríamos para uma aventura que provavelmente nos daria boas histórias para encher um livro de trezentas páginas.

Mas quando paro de verdade para pensar, converso com Deus, eu vejo que o que realmente preciso é ser mais parecido com Jesus, simples assim. Você quer a chave para o sucesso na visão daquele que criou este mundo? O caminho é esse.

“Se eu já percebi o que realmente sou, em termos de humildade de espírito e de atitude lamentosa, em vista de minha pecaminosidade, então sou levado a ver que é necessário que em mim não se manifeste o orgulho.”

“O indivíduo manso não se orgulha de si mesmo; não se vangloria a seu próprio respeito sob hipótese alguma.”

“… ser manso significa que o indivíduo se anulou completamente, como se não tivesse direitos e nem merecimentos seja no que for.”

“Quando alguém vê verdadeiramente a si mesmo, sabe que ninguém pode dizer algo a seu respeito que seja exageradamente mal”

“…’bem-aventurados os mansos’, e não aqueles que confiam em suas organizações, que confiam em suas forças, capacidades e instituições. Antes, cumpre-nos pensar segundo um exato reverso dessas ideias.”

D.Martyn Lloyd-Jones

“Aquele que já está caído, não precisa temer a queda.”

John Bunyan

“…tidos por enganadores, sendo verdadeiros; como desconhecidos, apesar de bem conhecidos; como morrendo, mas eis que vivemos; espancados, mas não mortos; entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo muitos outros; nada tendo, mas possuindo tudo.

2 Conríntios 6.8-10

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alegrias proibidas

Romeno, nascido em Bucareste, Andrei Pleșu viveu muitos anos de sua vida em um país controlado por um regime comunista. Através da ótica de uma vida sofrida que teve nesse período, ele analisa o seu povo nesta situação, fazendo uma comparação com a vida na Europa Ocidental, que era, e ainda permanece de certa forma, completamente diferente.

É bom ler e ver as diferenças entre as alegrias que ele diz separar as pessoas do Leste Europeu e da Europa Ocidental, como, por exemplo, a alegria de um romeno da época em não lhe acontecer algum mal que lhe era previsto por viver dentro de um regime autoritário e injusto, enquanto que um francês da mesma época considerava como sendo algo comum coisas como energia elétrica ininterrupta, transporte público em boas condições e uma padaria com pães a um preço acessível para poder comprar em qualquer dia da semana. E isso diferenciava muito o romeno do francês, pois o que para um era “óbvio” com relação à vida diária, para o outro seria motivo de uma alegria inimaginável. No entanto, o que me chamou atenção foi o que o autor chamou de alegrias proibidas:

“na Europa Ocidental, a proibição, como expressão de uma moralidade unanimamente aceita, é legítima, o que faz que a transgressão dela seja maléfica. No Leste Europeu, a proibição era ilegítima, de maneira que a transgressão dela era um ato de coragem moral, uma forma pura de júbilo espiritual.”

Andrei Pleșu

Enquanto que para um, burlar as leis era uma falta grave contra o seu governo e até mesmo contra o seu povo, para o outro, o desrespeito à algumas leis era visto como uma “coragem moral”, pois, nessa perspectiva, não há nada mais justo do que burlar uma lei injusta.

Entendo que no Brasil haja uma separação semelhante: há alguns que vivem na “Europa Ocidental brasileira”, onde o “óbvio” é um mundo completamente diferente daqueles que vivem no “Leste Europeu brasileiro”; para aqueles a vida pode ser vivida através de uma busca de alegrias simples sem ter que levar em conta alguns problemas de seu país, enquanto que, para esses, há uma verdadeira imposição do Estado sobre eles, onde as leis só servem para punir e nunca para protegê-los.

Aqui também há o excluído, a diferença é que isso tudo acontece aqui dentro e não em países diferentes. E, a partir dessa perspectiva, acho que conseguimos entender um pouco da falta de cumprimento de algumas leis do nosso país, pois para os que estão na margem sua postura se assemelha ao que acontecia no Leste Europeu:

“a alegria de enganar o Estado, chegando até ao furto ao Estado, ganhavam, no contexto comunista, uma estranha legitimidade: eram um ato de sabotagem, uma maneira de pegar de volta o que o regime te confiscara de modo arbitrário quando chegou ao poder”

Andrei Pleșu